Edição n°180 julho/agosto 2026
CAPA: AUTOMAÇÃO TEM DIVERSIDADE DE SOLUÇÕES E OPÇÕES

O sol muda. A fachada responde. A persiana desce antes que o calor ocupe o ambiente. O brise se movimenta para preservar a entrada de luz sem entregar o conforto térmico. O pergolado se fecha quando a chuva aparece. O portão reconhece o acesso. A janela maxim-ar abre onde a mão não alcança.
Cada gesto parece simples. Mas, por trás deles, há motor, sensor, comando, instalação, especificação, compatibilidade, alimentação elétrica, conectividade e manutenção. Há ainda uma mudança maior em curso: esquadrias, persianas, portões, brises e pergolados deixam de ser apenas elementos de abertura, fechamento, sombreamento ou proteção. Passam a participar da operação do edifício.
A automação entrou em nosso dia a dia primeiro como comodidade. Depois, como sofisticação. Agora, começa a ocupar outro lugar: o de recurso técnico capaz de melhorar conforto, segurança, acessibilidade, desempenho energético e experiência de uso.
Não se trata apenas de abrir e fechar pelo celular. Em projetos residenciais, corporativos, comerciais, hoteleiros e de retrofit, a automação passou a dialogar com demandas contemporâneas da arquitetura: grandes vãos, fachadas envidraçadas, portas de maiores dimensões, ambientes integrados, controle de luminosidade, proteção solar, privacidade, segurança de acesso e redução de esforço físico.
O movimento da esquadria passou a importar tanto quanto sua aparência. No Brasil, o mercado ainda combina entusiasmo, amadurecimento e dúvidas. De um lado, cresce a oferta de motores, fechaduras eletrônicas, sensores, sistemas wi-fi, controles por aplicativo, comandos por voz, soluções a bateria, energia solar, Bluetooth, Zigbee e integrações com plataformas de casa inteligente. De outro, ainda há confusão entre motorização, automação, conectividade e inteligência.
De fato, nem tudo que se move é inteligente. Tampouco o que tem wi-fi foi bem especificado. E nem toda solução automatizada funciona bem quando é pensada apenas no fim da obra.
Esse talvez seja o ponto central da discussão. A automação de esquadrias, persianas, portões, brises e pergolados não pode ser tratada como acessório de última hora. Em muitos casos, ela depende da tipologia da abertura, do peso da folha, da carga da persiana, do torque do motor, da infraestrutura elétrica, da previsão de manutenção, da interface com sensores, da segurança contra obstáculos e da compatibilidade com o sistema escolhido.
Quando bem resolvida, amplia possibilidades. Se improvisada, expõe fragilidades.
A fachada que responde ao clima, ao usuário e ao uso real do edifício precisa de uma engenharia silenciosa por trás. É ela que faz
o movimento parecer natural.
Da comodidade ao desempenho
Durante muito tempo, a automação aplicada a esquadrias e sistemas de proteção solar foi associada ao conforto imediato. Bastava acionar um controle remoto para justificar a tecnologia.
Essa percepção mudou. Atualmente, a automação também aparece conectada a eficiência energética, conforto térmico, conforto visual, acessibilidade, segurança e valorização imobiliária. Persianas motorizadas, brises automatizados, telas solares, pergolados bioclimáticos, portões integrados a sistemas de acesso e janelas acionadas remotamente passaram a compor um repertório mais amplo de soluções para a arquitetura contemporânea.
O que antes parecia luxo começa a ser discutido como desempenho. Em fachadas com grandes áreas de vidro, por exemplo, controlar a incidência solar não é apenas uma questão estética. É uma resposta ao calor, ao ofuscamento, ao consumo de energia e à qualidade do ambiente interno. Em dormitórios, persianas integradas motorizadas melhoram conforto, privacidade e uso cotidiano. Em edifícios corporativos, brises e telas solares automatizados podem ajudar a equilibrar luz natural, sombreamento e carga térmica. Em janelas maxim-ar fora do alcance manual, a automação deixa de ser conveniência e vira funcionalidade.
O detalhe muda de categoria: passa a operar. Esse movimento também acompanha a digitalização do cotidiano. O consumidor já se habituou a câmeras conectadas, iluminação inteligente, assistentes virtuais, fechaduras digitais e aplicativos de controle. Naturalmente, passa a esperar que portas, janelas, persianas e áreas externas também possam responder a comandos, rotinas e sensores.
Mas expectativa não é especificação. A oferta de tecnologias aumentou, mas a compreensão técnica ainda precisa avançar. Wi-fi, Bluetooth, Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA), controle remoto, motor tubular, sensor de obstáculo, central de automação e protocolo de comunicação não são sinônimos. Em uma boa solução, cada tecnologia tem sua função. Em uma solução mal explicada, tudo vira promessa genérica.
Por isso, a pauta da automação não pode ser conduzida apenas pelo fascínio tecnológico: precisa voltar para a obra. Para o vão, a esquadria e a fachada.
O que os estudos internacionais já indicam
No exterior, a automação de fachadas e sistemas de sombreamento é discutida em um patamar mais amplo. A questão não está restrita ao comando remoto, mas à integração entre envoltória, luz natural, iluminação artificial, climatização, sensores e gestão predial.
O documento “Integrated Daylighting and Electric Lighting in Non-residential Buildings”, produzido no âmbito do IEA SHC Task 61/EBC Annex 77, aponta que a iluminação responde por 15% do consumo global de eletricidade e por 5% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂). O mesmo material afirma que soluções eficientes de iluminação em edifícios não residenciais dependem da combinação de três frentes: indústria de fachadas, iluminação elétrica e automação predial.
O dado ajuda a mudar a conversa: a persiana deixa de ser apenas o elemento que sobe ou desce. O brise deixa de ser apenas composição de fachada. A proteção solar deixa de ser uma peça isolada. Quando esses sistemas se articulam com luz natural, iluminação artificial e climatização, passam a fazer parte de uma estratégia de desempenho.
Outro número reforça a escala do tema. O estudo aponta que cerca de 1,3 bilhão de metros quadrados de fachadas envidraçadas são construídos no mundo a cada ano. Também observa que sistemas de esquadrias costumam ter vida útil de 30 a 50 anos, enquanto sistemas de iluminação elétrica tendem a ser substituídos em ciclos mais curtos, de dez a 15 anos.
Por isso, decisões sobre vidro, sombreamento, brises, persianas e automação não podem ser tratadas como acabamentos removíveis. Afinal, atravessam décadas de uso.
Uma pesquisa associada ao IEA SHC Task 61 e ao Lawrence Berkeley National Laboratory avaliou persianas internas de dupla zona em um edifício comercial existente em Oakland, na Califórnia. A solução separava a área superior, voltada ao redirecionamento da luz natural, da área inferior, dedicada à vista externa e ao controle solar. Segundo o material, 80% dos ocupantes ficaram satisfeitos com as persianas de dupla zona. No teste do LBNL, a configuração automatizada reduziu em 20% o consumo diário de energia com resfriamento e iluminação em uma zona perimetral de escritório voltada ao sul.
É um exemplo específico. Mas sua importância está no raciocínio que provoca. Quando bem aplicada, a automação de sombreamento pode atuar na fronteira entre luz, calor, conforto visual, vista externa e consumo energético. Não substitui o bom projeto. Amplia suas ferramentas.
A discussão internacional também aparece em programas como o IEA EBC Annex 44, dedicado à integração de elementos ambientalmente responsivos nos edifícios. A lógica é clara: o maior potencial futuro de eficiência está nas tecnologias capazes de integrar elementos ativos da construção e sistemas prediais, com apoio de sensores, controles e informação.
Desse modo, a fachada deixa de ser limite. Passa a ser interface.

Quando a fachada começa a decidir
O futuro da automação não está apenas no botão. Está na decisão.
A próxima etapa do setor tende a ser marcada por sistemas capazes de responder ao clima, ao uso e ao comportamento dos usuários de maneira cada vez mais coordenada. Não se trata somente de programar uma persiana para fechar em determinado horário, mas de combinar sensores de luminosidade, temperatura, vento, chuva e presença com rotinas de conforto, segurança e economia de energia.
Nesse cenário, o edifício passa a interpretar sinais. Se o sol incide com força sobre uma fachada, o brise pode se orientar. Se a temperatura interna sobe, a persiana pode descer antes que o ar-condicionado trabalhe mais. Se a chuva começa, o pergolado pode se fechar. Se há excesso de vento, um toldo pode recolher. Se o ambiente está desocupado, a proteção solar pode operar de forma diferente. Se o usuário chega, portões, fechaduras e iluminação podem responder a uma sequência previamente definida.
Na Europa, a revisão da “Energy Performance of Buildings Directive” reforça essa direção ao tratar a modernização e a digitalização como parte da agenda de desempenho energético dos edifícios. A Comissão Europeia informa que 85% dos edifícios da União Europeia foram construídos antes de 2000, que 75% têm baixo desempenho energético e que a taxa anual de renovação energética ainda é de apenas 1%.
A mesma diretriz introduz requisitos para sistemas de automação e controle predial em edifícios não residenciais, além de provisões relacionadas à qualidade ambiental interna.
Esse ponto aproxima automação e retrofit. O futuro não está apenas nos edifícios novos. Está também no estoque construído. Em prédios existentes, automatizar persianas, brises, janelas, toldos ou sistemas de proteção solar pode ser uma forma de melhorar operação, conforto e desempenho sem necessariamente substituir toda a envoltória.
O desafio está na integração. Porque uma fachada automatizada não funciona bem se cada componente fala uma língua diferente. Motores, centrais, sensores, aplicativos, assistentes virtuais e sistemas prediais precisam se comunicar de forma confiável. A falta de compatibilidade entre marcas, a multiplicidade de aplicativos e a ausência de projeto integrado ainda são obstáculos importantes.
Sem dúvida, o usuário não quer administrar tecnologia. Quer conforto, segurança, privacidade, luz adequada, temperatura agradável e uso simples. É aí que a automação amadurece. Quando some da percepção do usuário e aparece no resultado. Quando deixa de ser espetáculo e passa a ser infraestrutura. Quando o movimento certo acontece na hora certa, sem ruído, sem esforço e sem improviso.
A fachada do futuro talvez não seja a que mais se mexe. Será a que melhor entende quando deve se mover.
O mercado por quem especifica, fabrica e integra
Para entender como essa discussão se manifesta no mercado brasileiro, a revista Contramarco encaminhou um questionário a empresas que atuam com automação aplicada a esquadrias, persianas, portões, brises, pergolados e sistemas de proteção solar.
As respostas foram analisadas editorialmente pela reportagem, com o objetivo de identificar tendências, desafios técnicos, estágio de maturidade do consumidor, dependência de tecnologias importadas, critérios de especificação e perspectivas para os próximos anos.
Empresas participantes
Para a elaboração desta reportagem, a equipe Contramarco entrou em contato por e-mail, telefone e aplicativos de mensagens, com diversos fabricantes, fornecedores e especialistas vinculados ao tema em destaque, para que você, nosso leitor, tenha acesso a informações atualizadas, dicas de produtos e soluções que possam servir de boa referência para suas consultas.
Participam desta reportagem as empresas Alumiconte, Ayshu, Emteco, Esquadrimax/Grupo Perfisud, Expalum, Fise, Somfy, e Udinese Assa Abloy.



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