Edição n°179 maio/junho 2026
CAPA: VEDAÇÃO: A ENGENHARIA INVISÍVEL DAS ESQUADRIAS


Água, vento, ruído e calor raramente atravessam uma fachada por falhas aparentes. Na maioria das vezes, entram por detalhes quase invisíveis: uma junta mal especificada ou uma vedação inadequada.
Em esquadrias e fachadas, vedar deixou de ser apenas etapa construtiva. Significa garantir desempenho, durabilidade e conforto da edificação. Primeiro vem o ruído. Depois, o vento frio próximo à janela. Em seguida, surgem manchas, infiltrações e o desconforto térmico.
Em muitos casos, tudo começa em detalhes quase invisíveis: uma junta mal executada, uma vedação inadequada ou poucos milímetros fora de tolerância. Em esquadrias e fachadas, vedar deixou de ser apenas etapa construtiva. Hoje, garante desempenho, durabilidade e conforto ao longo da vida útil da edificação.
Vedação não se resume apenas impedir a entrada de chuva. Também se refere a controlar ar, ruído, temperatura e umidade.
Maior nível de exigência
Essa transformação acompanha a evolução da arquitetura contemporânea. O aumento das superfícies envidraçadas, o uso de perfis mais esbeltos e a busca por fachadas visualmente mais leves elevaram o nível de exigência sobre os sistemas de fechamento. Em projetos de alto desempenho, pequenas falhas podem comprometer a estanqueidade, o conforto térmico, o isolamento acústico e a durabilidade dos materiais. Às vezes, poucos milímetros mal vedados já são suficientes para desencadear infiltrações, condensação interna e desgaste prematuro.
Os números ajudam a dimensionar tal situação. Estudo citado em uma conceituada publicação acadêmica da ASHRAE (sociedade técnica de aquecimento, refrigeração e ar-condicionado), com base em 17 mil reclamações por defeitos construtivos, apontou que 69% dos problemas estavam relacionados à umidade em sistemas de envoltória. Aliás, o chamado “90:1 Principle”, amplamente difundido na engenharia de fachadas, sustenta que até 90% das infiltrações podem se concentrar em apenas 1% da superfície externa da edificação — especialmente em juntas, arremates, perímetros de esquadrias e demais interfaces do sistema construtivo.
Pouco espaço. Muito risco. Nesse cenário, itens antes vistos apenas como complementares assumem função central na engenharia das esquadrias. Borrachas de EPDM, escovas de vedação, silicones estruturais, fitas expansivas e juntas de movimentação passaram a atuar como elementos técnicos da fachada. Mais do que preencher frestas, esses materiais precisam acompanhar dilatações térmicas, resistir ao sol, suportar umidade constante e manter estabilidade mesmo após anos de exposição climática.
Arranha-céus cada vez mais altos
A complexidade aumenta em edifícios de grande altura. Conforme cresce a exposição da fachada aos ventos, muda também o comportamento da água sobre as superfícies. A pressão exercida em determinadas regiões pode provocar infiltrações mesmo em sistemas aparentemente bem executados. Por isso, os ensaios de estanqueidade ganharam protagonismo.
No Brasil, a ABNT NBR 10821 consolidou uma mudança importante ao tratar esquadrias externas a partir de critérios como permeabilidade ao ar, estanqueidade à água e resistência ao vento. Paralelamente, referências internacionais ligadas à eficiência energética passaram a tratar o controle da entrada de ar pela envoltória como fator determinante para desempenho térmico e consumo energético das edificações.
Quanto mais sofisticado o projeto arquitetônico, menor a margem para improvisos em obra. Sistemas unitizados, fachadas-cortina e esquadrias de grandes dimensões exigem compatibilização precisa entre componentes, interfaces e instalação. Nesse contexto, a vedação deixa de ser apenas detalhe construtivo: assume papel decisivo na longevidade e na performance das edificações.
Na maior parte das vezes, quase ninguém percebe sua existência. Mas é justamente ela que sustenta, silenciosamente, a integridade técnica da arquitetura contemporânea. E é nesse universo — feito de juntas, selantes, escovas, fitas, guarnições e sistemas de controle — que fabricantes e especialistas concentram hoje uma das disputas mais importantes da engenharia das fachadas.
Empresas participantes
Para elaborar esta reportagem especial, a equipe Contramarco entrou em contato por e-mail, telefone e aplicativos de mensagens, com profissionais de diferentes segmentos da cadeia da construção. O objetivo foi reunir percepções sobre critérios de especificação, desafios recorrentes e oportunidades de inovação relacionadas ao tema.
Participam desta reportagem as empresas Bostik, BSB Borrachas, Dallminas, DXmax, FZA Brasil, Saint-Gobain Norbond, Sealway, Silva Selantes, Supperiore, Vedugal Brasil, e a especialista em Patologia das Esquadrias e Vidros, Audrey Dias, diretoratécnica da Aluparts.



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